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quarta-feira, 25 de maio de 2011

O Depoimento do Grande Psiquiatra e escritor Içami Tiba

Os valores herdados do Japão



Içami Tiba

Cotia / SP - Brasil
70 anos, psiquiatra, escritor


Meus pais eram bastante cultos para a época e sempre ouvi falar que ele havia tirado o meu nome a partir do seu. Yuki tem dois kanjis, que significam Yu (guenki = saúde) e ki (yorokobu = ficar contente, alegre). O primeiro ideograma sozinho deu origem ao meu nome Issami, que significa coragem com saúde (issamashii). Para ser usado como nome próprio, esse ideograma pode vir ou não acompanhado de ‘mi’ ou ‘mu’. Então, meu nome poderia ser tanto Issami quanto Issamu. Papai preferiu Issami, usando somente o kanji. Quando perguntava ao meu pai sobre o significado do meu nome, ele me respondia que eram os valores dos samurais: forte, valente, corajoso etc. Ficava bastante satisfeito com a resposta dele, pois sempre gostei do meu nome. Quando assisti à pré-estréia do filme "O Último Samurai", um dos kanjis na apresentação do filme era o ideograma do meu nome e a sua correspondente tradução na legenda: coragem. Um dos atributos dos samurais. Meus pais deveriam estar muito esperançosos comigo quando deram este nome para mim! Por uma questão de cartório, meu nome acabou sendo escrito com ‘ç’, mas poderia ter sido escrito com ‘ss’. Papai tinha orgulho de seu sobrenome e não aceitou a escrita portuguesa Chiba porque em japonês pronuncia-se ‘Tiba’.
Um dos valores dos japoneses é suportar sofrimentos sem reclamar. Até hoje, os japoneses, mesmo indo a médicos, não ficam reclamando de suas dores. Meus pais nunca nos falaram o quanto sofreram. Não havia dificuldades que meus pais não superassem. Reclamar é vergonhoso, agentar é ser honroso. Acredito que foi por isso que aprendi a suportar sofrimentos, aguentar frustrações, superar contrariedades. Birra? Nem pensar!!! Dificilmente filhos educados nessa linha desrespeitam seus pais, que tinham poder e autoridade reconhecidos por todos eles. De japonês, tenho a palavra, a ética. Aquilo que eu falo é. Posso até ter prejuízo, mas o que falo tem que ser mantido. O que me deixa bravo é essa questão de promessa, de cumprir palavra. Para mim, se não cumpre aí é difícil... Sou um cara disciplinado, esforçado, mas são coisas que trouxe lá de trás e sempre fui assim. De japonês também não tenho o costume de falar de mim se não for perguntado.
Tem uma época da minha vida que me considerava muito japonês no sentido mais pejorativo. Às vezes, japonês é tão seguro de si que acha não precisar de mais informação; que, se está bom está bom, não muda. Foi quando me formei e quando desenvolvi a teoria da adolescência. Achava que tudo estava errado, pesquisei e cheguei à teoria do desenvolvimento [hoje ‘relacional’.]. Nesse período, não queria ler nada, não quis fazer pós-graduação, tanto que não tenho mestrado nem doutorado. Só queria trabalhar, estudar e evoluir o que eu tinha. Foi um momento importante, porque fiz uma coisa nova, tinha que acreditar nela e divulgar. O que o Piaget fez para as crianças, fiz para os adolescentes. Nesse tempo, minha mulher dizia que eu me considerava onipotente, mas tinha que participar de congressos, precisava fazer cursos. Já eu achava que tinha que divulgar o que sabia e não aprender, me isolei. Só quando comecei a ouvi-la, mudei. Em uma ocasião eu quis comprar um terreno, mas Natércia me alertou para coisas que nem havia pensado: puxou minha orelha dizendo que nem tudo o que penso está certo. Apesar de ter frustrado meu empreendimento imobiliário, comecei a acordar.
Meu plano de trabalho sempre esteve mais voltado para o Ocidente. Mas com [o filho] Andre aconteceu uma coisa interessante. Com sete, oito anos, começou a perguntar para a gente por que a turma o chamava de japonês se nós não tínhamos muita convivência com japonês. Então falei ‘vamos para o Japão para conhecer’. Se eu explicar, vou falar do nissei que sou e não do Japão. Andre se interessou bastante pela língua, brinquedos, fala algumas palavras e entende razoavelmente. A menina ficou muito chocada quando visitamos Hiroshima. Fomos a passeio. No Japão tem alguns parentes de minha mãe, mas não temos contato com eles. Natércia aprendeu a cantar para as crianças, com a Kiku-chan e com amigos mestiços do Andre. Aliás, a Natércia também passou a conhecer comida japonesa e a prepará-la em casa, inclusive o sukiyaki, hoje uma especialidade do Andre.
Para mim, essa mistura da cultura japonesa com a brasileira foi excelente, um acréscimo, me quebra a dureza do japonês de um jeito muito gostoso. Quebra com amor e não por imposição, coisa que não aceitaria tão facilmente. No Japão, uma tradição antiga diz que, quando nasce uma filha o pai planta duas kiris [árvore muito valorizada para a fabricação de diversos produtos]: corta uma para dar a festa e a outra para fazer o enxoval. Cortou as árvores, acabou a história, pois [a mulher] só vale quando estiver em casa. Quando a mulher casa, é praticamente dada para outra família e a gente perde contato, passa a valer mais a família do homem. Pra mim, essas coisas eram muito radicais...
Mas há coisas boas também. Japonês, a primeira coisa que faz é olhar para o futuro, e não ficar só lamentando o passado. Minha visão é para o futuro. Nós brasileiros estamos assim porque nos incomodamos pouco com o nosso ambiente. Por isso, viajo pelo Brasil fazendo [palestras] aquilo que era o meu sonho de lá de trás, do médico de kombi, e deixar sementes. Livros são sementes que o destino leva por caminhos que o próprio autor desconhece. E, quando encontram terreno fértil, eles germinam gerando novas sementes, diferentes das originais. Estou no caminho do meu sonho. Dôo parte do livro “Quem ama educa” para a Enkyo, uma entidade nipo-brasileira de beneficência aos necessitados. É um resquício do que foi o Hospital Santa Cruz, na Vila Mariana, construído por japoneses e confiscado pelo governo na época da Guerra. Fora isso, colaboro com tudo o que se refere a dekassegui. Eu me considero um nikkei atuante.
Depoimento à jornalista Patrícia Rodrigues
Fotos de Renato Stockler e arquivo pessoal de Içami Tiba




sábado, 13 de novembro de 2010

"Crianças Aprendem Brincando..."

Crianças aprendem brincando...

Por Içami Tiba

Dois amiguinhos de 6 anos estão brincando no pátio de sua escolinha. Zezinho, o “Palito”,  é um menino magrinho e ágil e Zelão, o “Bola”, é forte e pesado.
O “palito” propõe ao “Bola”: Vamos brincar?
-Do que? Pergunta o “Bola”.
- De pega-pega!  - e o “Palito” já dispara numa corrida em linha reta para a frente e o “Bola” tenta pegá-lo e não consegue. O “Bola” vê o “Palito” se distanciando cada vez mais e dá-se conta de que não vai conseguir pegá-lo. Então grita, já parando de correr:
- Correr aí não vale!
“Palito” para de correr e volta para onde o “Bola” está.
O que aconteceu entre estes amiguinhos?
Eles praticaram uma grande lição de vida: os valores de respeito ao próximo, de disciplina, de diversão, de estabelecimento de limites, de relacionamento humano estar acima dos interesses pessoais.
Era do interesse comum o desejo de brincarem juntos. O “Palito” perguntou se o “Bolão” queria brincar. Esta brincadeira não teria acontecido caso o “Bolão” não quisesse. “Palito” propôs a brincadeira na qual ele tinha certeza que levaria vantagem porque era mais rápido. Seria uma competição divertida, lúdica. Bastaria “Bolão” não correr atrás e acabaria a brincadeira. Porém ele havia aceitado; mesmo sabendo que iria perder, correu atrás do “Palito”. É a disciplina em ação: mesmo perdendo a corrida, mantinha o prazer de brincar. Neste momento era mais importante o manter a brincadeira do que perder ou ganhar. Se há um vencedor, tem que haver um perdedor. Faz parte do jogo. Tão simples assim. “Bolão” não largou a brincadeira porque perdeu. Ele já sabia que perderia quando aceitou o pega-pega.
A grande questão foi: Por que “Palito” parou quando “Bolão” gritou que correr lá não valia? Como ninguém havia combinado antes qual seria o território da brincadeira, o que “Bolão” quis foi advertir que se “Palito” continuasse correndo, “Bolão” não brincaria mais. Para “Palito” também era mais importante manter a brincadeira do que ganhar ou perder. Quer dizer: “Palito” atendeu a advertência porque queria continuar brincando. Se não parasse, a brincadeira acabaria naquele instante. Era chegada a hora do limite que o “Bolão” suportava. Além disso, “Palito” perderia um companheiro de folguedo, e a diversão acabaria.
“Palito” voltou para onde “Bolão” parou já sabendo que era a vez do outro propor a próxima brincadeira, pois ele havia já proposto o pega-pega. Caso “Palito” quisesse propor outra brincadeira, seria injusto com o “Bolão”. Para a brincadeira continuar ela tem que ser democrática onde todos se divertem e não somente um se diverte enquanto o outro simplesmente é ridicularizado ou desrespeitado.
Quando “Bolão” sente que “Palito” está ao seu alcance, ele avança no pescoço dele e o enforca com o seu braço enquanto já vai dizendo: Agora é luta-livre! (ou judô, ou “ultimate fighting”) e já rola por cima dele e o deixa roxinho... “Palito” pede água batendo-lhe onde alcançar rapidamente várias vezes com mão aberta. É uma forma de dizer que não está mais agüentando.
Aqui também todas as considerações sobre o pega-pega podem ser revistas. Mas o principal motivo para o “Bolão” parar de enforcar o “Palito” é porque ambos sabem que com morto não se brinca...
... e saem os dois abraçados em busca de novas e divertidas aventuras.
“Palito” e Bolão” não precisaram que nenhum adulto os ensinasse a brincar. Assim como outras crianças, eles aprenderam a ser saudáveis companheiros num excelente relacionamento. Foi por estas e outras tantas brincadeiras, ambos poderão ser sócios-fundadores de uma empresa empreendedora e terão grande sucesso mundial.

Içami Tiba

Içami Tiba é psiquiatra e educador. Escreveu "Família de Alta Performance", "Quem Ama, Educa!" e mais 26 livros.

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